Um dos pontos mais interessantes (na minha opinião) após ler o texto de Arlindo Machado é o foco que o autor faz relativamente ao papel do artista no motor de evolução tecnológica, industrial e corporativo das sociedades; e como o artista tem dificuldade em afirmar-se contra uma necessidade de caráter funcional nad suas criações e, por consequente, contra o capitalismo via evolução tecnológica.
Machado aponta para o facto de que se um artista deseja manter-se na vanguarda da experimentação assim como subsidiar as suas criações, aumentando as chances de vir a ser reconhecido; tem de se aliar com certos e determinados interesses económicos e servir uma determinada função. Miguel Ângelo pintou o teto da Capela Sistina para o seu cliente, a igreja católica romana, e certamente de acordo com as suas directrizes - não o fez, certamente, com a total liberdade que o seu espírito desejaria [1]. Este sponsoring, permitiu ao pintor o acesso aos materiais e à oportunidade que dificilmente existiria se Miguel Ângelo tivesse renunciado as condições impostas. Nem tão pouco teria acesso ao bloco de mármore que daí surgiu a famosa estátua de David. E isto apenas citando dois exemplos de obras de arte de função religiosa.
Por sua vez, os grandes grupos, sejam eles políticos, económicos ou religiosos; sempre dependeram da existência de artistas para fazer cumprir os seus objetivos. Os artistas apelam às massas de uma forma que um técnico jamais o faz. E esse apelo gera conversão (ou consumo, no caso económico), e a conversão gera dinheiro. As grandes empresas, ao desenvolverem novas tecnologias, recorrem aos artistas para que estes as transformem em algo admirável e digno de emoções por parte do público-alvo. E ao ganharem mais dinheiro, mais facilmente subsidiam mais artistas por lado, e potenciam a investigação e desenvolvimento da técnica pelo outro - criando um ciclo sem fim de descoberta-criação-consumo.
Traçando um exemplo nos dias de hoje podemos afirmar que o realizador de cinema não consegue utilizar a última tecnologia em efeitos especiais, ou utilizar o último modelo de câmara de filmar, ou sequer contratar milhares de figurantes; se não dispuser de verbas por parte dos investidores (estúdios e independentes). E estes investem, pois sabem que o público (aqueles que compram os bilhetes e sorvem todo o universo de consumo gerado em torno de uma determinada manifestação cultural) não se contentam com demonstrações tecnológicas - eles querem ser surpreendidos e trazer os seus sentimentos à flor da pele.
É o negócio das emoções que, por incrível que pareça, é o que faz a tecnologia avançar e o artista inovar e brilhar. Uma vez mais.
Notas
[1] Daí as mensagens subliminares que certos e determinados autores do renascimento introduziam nas suas obras (muitas vezes contra o próprio cliente), como forma rebelde de afirmar a autonomia do seu espírito artístico.
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Máquina e Imaginário: Artista, Autor e Leitor
Partindo do conceito das ‘Máquinas Semióticas’, Vilém Flusser assume-se inicialmente como um dos principais insurgentes contra esta mecanização da arte, relegando o estatuto de artista a mero operador de máquinas – afinal, ele ao não saber mudar a máquina, está limitado ao que esta tem para oferecer, ou seja, um número limitado de opções, balizando a sua própria creatividade. Flusser advogou que o artista se deveria revoltar contra esta descarada automatização, esquivando-se da constrição à repetição permitida pela máquina e imaginando formas de contrariar essas predefinições em prol da sua própria expressão humana. Um dos argumentos que suporta esta posição está relacionada com a própria necessidade que a tecnologia tem de se atualizar de forma permanente, superando as versões anteriores com um maior número de funcionalidades e possibilidades de escolha. No entanto, Arlindo Machado contrapõe com dois pontos contra:
- Em primeiro lugar, qualquer processo cultural humano está envolvido em limitações, sejam elas físicas, temporais ou até semânticas, por exemplo. São regras que não obstante de estarem presentes, não limitam a criatividade e a espontaneidade do artista. De técnicas simples, o Homem é capaz de erguer maravilhas;
- Por outro lado, Flusser fala como se fosse possível quantificar e determinar com exatidão todas as possibilidades extraíveis dessas máquinas ou processos técnicos. Apenas em teoria poderemos afirmar que existem tais limites, pois na prática, a intervenção da imaginação faz de imediato dissipar esses limites.
Estas questões levam Arlindo Machado a afirmar que "em toda a cultura técnica há um componente que não pode ser quantificado, muito menos abordado em termos de 'limites': a imaginação dos homens (...)". Segundo estes autores, o processo artístico é contínuo desde que a máquina, a técnica ou o método é imaginado; passando pela utilização e o retirar partido da tecnologia; até terminar a quem delas obtém algum proveito para os mais variados fins, sejam eles artísticos, profissionais ou de índole pessoal e contemplativa. Esta complexa aproximação à autoria de um determinado artefacto, conduz à própria redefinição do papel do artista.
Segundo o autor, o artista não é mais uma entidade estanque e limitada ao engenho de um único homem. O artista serve-se da tecnologia e da arte que ela representa, para produzir a sua própria visão sobre determinada matéria, contudo, o processo não termina aqui.
Machado caracteriza a experiência estética contemporânea como algo que transborda de forma ativa para o lado do leitor – daquele que lê, aprecia e interioriza a obra de arte. A mensagem original do artista, no decorrer da contemplação, ao colidir com o espírito crítico, a experiência e a cultura do leitor, gera uma nova interpretação da obra dificilmente imaginada pelo autor original. Esta conclusão, apenas vem reforçar de que o processo de criação artística por via de um aparelho ou tecnologia de ponta, não está circunscrita às definições da técnica, fazendo-se arte aos olhos de quem se sentir invadido por ela.
Máquina e Imaginário: Avenças e desavenças
“Podemos considerar a relação da arte com a tecnologia como um casamento marcado por períodos de harmonia e de crises conjugais” (...)“Toda arte produzida no coração da tecnologia vive, portanto, um paradoxo e deve não propriamente resolver essa contradição, mas pô-la a trabalhar como um elemento formativo.”Tal como foi previamente comentado, o conceito clássico de arte é indissociável do conceito clássico de tecnologia. Por exemplo, os elementos da estética como a proporção e a perspetiva alimentam simultaneamente a ciência e a arte de formas distintas mas relacionáveis. O caráter reprodutivo e exato da mimese da arte pode até ser considerado um antecessor do método científico, onde o mundo é detalhadamente interpretado e transferido de forma calculista para a tela, o edifício ou o bloco de mármore.
Mas esta contemplação objetiva da natureza, esta procura pela perfeição da forma e da correta representação do belo, torna-se num problema interior para alguns artistas, cuja vontade é a de se exprimirem fora destes cânones. Este rompimento com a visão racional do mundo dá lugar a uma posição de escape protagonizada pelo próprio artista e pela sua visão individual e subjetiva.Se então a arte e tecnologia permaneciam casadas, segundo o autor da obra em análise, dá-se neste momento a separação. O romantismo faz assim vincar o eu artístico, constrito, até ao momento, pelo rigor da técnica instituída pelos valores clássicos da arte e reaproveitados pelo renascimento.
Este afastamento perante a técnica, torna-se mais evidente durante e após a revolução industrial. A rigidez das máquinas, a linearidade dos processos, as hierarquias e o controlo, a económica capitalista e o esmagar dos valores sociais; tornaram-se inspiração (pela negativa) da multiplicidade das correntes artísticas modernas.
Mas a reconciliação arte/tecnologia é, entretanto, feita em tempos pós-modernos com a chegada da electrónica. Na obra de Vasconcelos e Sá, é apontada a opinião de McLuhan sobre esta matéria: “McLuhan observava os desenvolvimentos da tecnologia electrónica (...) ao permitirem a fuga à prisão do mundo mecânico das engrenagens e alavancas” [1]. Na semelhança encontrada entre os circuitos elétricos e o próprio corpo humano, McLuhan viu uma clara possibilidade de entendimento e complementaridade entre a razão e a emoção no processo de produção artística.
Referências
[1] SÁ, José Carlos Vasconcelos (2001), “A crítica da Técnica e da Modernidade em Heidegger e McLuhan”, Revista Interacções #1, ISMT, pp.124-137
Máquina e Imaginário: Entre Walter Benjamin e as Máquinas Semióticas
A mesma dúvida que Walter Benjamin colocou face à
classificação da fotografia e do cinema como arte, comparando ambas atividades
com o no momento era, inequivocamente, considerado como arte; é aqui repescada
por Arlindo Machado em relação às novas manifestações ditas artísticas, tais
como a arte gerada por computador. O autor acredita que mais importante do que
rotular estas atividades emergentes como arte, é verificar se estas exigem a
reformulação dos conceitos e visões tradicionais sobre a arte e aquilo que é
considerado arte.
O que Machado procura transmitir é que mais importante do
que fazer encaixar uma nova vertente artística nos moldes existentes, é
transformar esses moldes de forma a poder acomodar estas formas de expressão.
Implicitamente, o autor defende que estes princípios basilares não podem ser
imutáveis pois a arte jamais o será.
O autor também reflete sobre a possibilidade da
máquina (fotográfica ou de filmar) de tomar conta do processo de construção
artística, sobreponto o seu valor objetivo/descritivo à verdadeira mensagem que
o autor/artista possa querer veicular até ao receptor. Machado cita Gilbert
Simondon no sentido de classificar estes aparelhos de ‘máquinas semióticas’
dado que se configuram como materializadoras de pensamento, dotando de
inteligência e cultura uma simples representação. Adicionalmente, não poderemos
apenas encontrar arte e construção de sentido na produção propriamente dita –
mas também na própria concepção da máquina e da sua dimensão projetora de
imaginário.
Máquina e Imaginário: A busca pela quantificação da arte
Remetendo ao facto
da tecnologia/técnica e arte serem elementos indistinguíveis na cultura
clássica grega, Arlindo Machado conduz a sua obra “Máquina e Imaginário” no
sentido de aprofundar a relação entre estes dois polos e um terceiro: os
interesses económicos que regem a sociedade e o mundo tecnocrata em que nos
inserimos.
A “Máquina e
Imaginário” arranca com a descrição de três atitudes exemplificativas da arte
em relação à tecnologia, mas que dificilmente partilham a mesma base comum: as
estéticas informacionais, o vídeo como forma de expressão artística (video art) e a conspiração contra a
máquina. Consideremos então apenas o primeiro ponto.
As estéticas
informacionais consistem no exemplo de uma rendição da arte à tecnologia. Pelo
simples facto de se verificar uma constante convergência da arte e informação
na cibernética, para Abraham Moles (1969) e Max Bense (1977), a quantificação
do nível estético e de originalidade de uma obra de arte teria de ser passível
de ser identificada por via de um processos matemáticos de caráter discreto,
científico e objetivo, auxiliado eletronicamente.
Esta tendência inclinou-se para o pressuposto de que uma vez
que a arte era passível de ser realizada com base em sistemas computacionais de
forma sem precedentes, também deveria ser possível ilibar a crítica artística
de fatores como emoção, expressão e inspiração; a favor de um método mais direto
e frio.



